Sábado passado assisti 4 meses, 3 semanas e 2 dias, filme do romeno Cristian Mungiu quem vinha sendo muito bem recomendado desde que levou a Palma de Ouro no ano passado.
Fui na sessão de arte do Cinema da Fundação de Recife. O bom destas sessões é que elas são sempre mais tarde da noite e por isso acaba atraindo um público menor, deixando a sala mais aconchegante e silenciosa. Bem, a sensação de “aconchego” já havia me abandonado completamente em menos de 20min de filme.
4meses… conta a história de duas universitárias que dividem o dormitório numa pequena cidade da Romênia. O filme parecia querer falar sobre Gabita (Laura Vasiliu), pálida e inerte, preocupada com os exames da segunda feira e com o que os próximos 2 dias lhe reservaria, mas logo percebemos que a câmera acompanha mesmo é Otília (Anamaria Marinca), que é daquelas jovens que andam sozinhas pela cidade, decididas e destemidas mesmo com o mundo se desfazendo sob seus pés.
O filme incomoda, e muito. Incomodam os diálogos cruéis, as atitudes ásperas, a estagnação insuperável de Gabita e até a corajosa amizade de Otília. Incomoda principalmente por mostrar a nós mesmos em um filme onde não queremos encontrar auto-identificação. São medos, sobressaltos, dores e perdas que chegam com força, mas que são estrangulados, sufocados por um olhar perdido dentro do silêncio do quarto, do ônibus ou banheiro, tal qual a gente tão comumente faz.
Não tem começo e não tem fim. Eu assisti a 113 minutos do meio de uma história perturbadora sabendo que sairia da sala do cinema carregando aquelas impressões comigo. Antes de dormir me flagrei olhando pro teto pensando o quão complicado poderia ser o cotidiano de quem vive dentro de uma sociedade que ainda sofre os transtornos de um regime comunista, onde comprar um sabonete, cigarros ou anticoncepcionais parecem obstáculos intransponíveis.
Aquelas pessoas com poder de serem tão egoístas e perversas, ou tão fortes e solidárias me acompanharam durante vários dias. Eu não sei se é o tipo de filme que se indica. Eu vi e gostei mas não convidaria qualquer um a me acompanhar. Pelo menos não aqueles que não possuem paladar e estômago para filmes absolutamente indigestos.
E para matar (ou atiçar) a curiosidade, o trailer:


Ainda está passando, por lá?
Filme excepcional. Ainda estou digerindo-o para poder escrever alguma coisa à altura dele.