
Eu tinha 14-15 anos, ele 17. Quieto e muito tímido, era dono de um sorriso encantador e impossíveis olhos azuis. O flerte começou bobo, durante o intervalo entre aulas. Enquanto eu esperava ser vista pela dona da cantina, ele sempre dava um jeito de milagrosamente ser atendido primeiro. E todo nosso contato se resumia a:
- “O que você vai querer?”
- “Bolo de cenouras com cobertura de chocolate”
- “Me dá o dinheiro. Pronto.”
- “Obrigada”
Um sorriso como “de nada”.
Durante o colegial - o primeiro e único período da minha vida em que isso aconteceu - eu tinha duas grandes amigas. E como é de praxe nessa fase da vida, fazíamos tudo juntas. Aulas, educação física, passeios de bicicleta, baladas escondidas dos pais e também a compra do lanche durante o recreio. Foi numa dessas que a amiga percebeu o mancebo, que não a percebeu porque gostava de mim há mais tempo.
E gostava mesmo. O rapaz se perdia nas tentativas. Escondia bilhetes nos meus cadernos, papéis de balas amarrados que valiam beijinhos e pequenas flores arrancadas do pátio da escola iam parar em cima da minha mesa enquanto eu estava fora. Com o tempo e muita insistência, dei meu número de telefone para ele. As ligações duravam 2h, no mínimo, para desespero completo dos nossos pais. Na distância, o papo fluia que era uma beleza, mas pessoalmente nunca ultrapassamos a fase do olhar apaixonado de lá, sorriso envergonhado de cá.
Um dia, num arroubo de coragem absurda marcamos um encontro.
- “No final da aula, na escada, pode ser?”
- “Pode, mas deixa todo mundo sair primeiro! Não quero que ninguém veja a gente!”
Em segredo porque eu não concebia a idéia de assumir para toda a escola (eu já falei que sou exagerada?) que estava gostando saindo com alguém e perder minha fama de chata difícil.
Lembro-me de que naquele fatídico dia, enquanto caminhava rumo a escola, eu delirava de preocupação e excitação. “Um beijo. Caramba, um beijo! Um beijo de verdade! Como é que eu vou fazer isso, meu deus?” - É, você entendeu bem. 15 anos e Sabine.as ainda não tinha ficado com ninguém. Detalhes, meu povo, detalhes. Voltemos para história, sim? - Vestia minha melhor calça jeans, o velho all star azul, moleton laranja amarrado na cintura, perfume da irmã mais velha. Entrei no colégio suando frio. Assisti a uma aula, duas aulas. Intervalo. E, de repente, um puxão. “Cara, vem no banheiro comigo, AGORA!” - diz uma das amigas citada acima. Aquela que também reparou no rapazote.
- Ai, Sabineeee, me fala!
[putz, ela descobriu! Todo mundo descobriu! Put*merda!]
- Que foi, mulher?? [aquela fingida cara de santa]
- Você conhece o Renatinho? Do 2ºB? Você sabe quem é, não sabe???
- Er… o Renatinho? Sei sim.. do 2ºB. Todo mundo sabe quem é. [ainda me fazendo de besta]
- Caracas, Sabine, ele é tão lindo! Não parou de passar na frente da nossa sala hoje e acho que tá me dando bola. [oi?] Eu preciso ficar com ele, cara! PRECISO! [assim mesmo, bem exagerado]
E me descreveu todos os motivos, dos mais nobres aos mais sórdidos, do porque ela precisava ficar com ele. Ouvi tudo aquilo sem dizer nada, engolindo a seco e tentando processar a informação daquele jeito torto que eu sabia/sei fazer. Se por um lado existia aquele laço tão recente, doce e gentil; do outro estava a velha companheira de estudo, farras e risadas descontroladas. Ela rindo divertida na minha frente ajudou minha decisão.
Dei a ela meu encontro.
Entreguei os bilhetes [ele não assinava meu nome porque eu pedia segredo, lembra?], os papéis de balas, as cartinhas com o perfume dele. De brinde confidenciei algumas preferências ["Oasis, cara. Ele adora"]. Justifiquei tudo com o impossível: “Ele tá afim de você há muito tempo, amiga. Só que me pediu pra não falar nada”.
Às 17h bateu o sinal. Estrategicamente - como eu já havia adiantado - esperamos um pouco mais pra sair. Do alto da escada, ele esperava com uma caixinha nas mãos e pareceu visivelmente surpreso por me ver acompanhada. Do pé da escada eu já tinha trocado as lentes que usava para vê-lo. Os apresentei e me afastei sem olhar para trás.
Eu queria poder dizer que o romance deles foi um sucesso sem precendentes e que durou anos de alegrias sem fim. Mas vá. A gente sabe que não. Ficaram algumas vezes e trocaram de amores sem sequelas.
.
Ele nunca mais falou comigo.
E eu ainda não aprendi essa lição.
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Este insight surgiu no meio de uma conversa via gtalk. Deste papo nasceu o post sobre o Gabrielzinho e também este aqui. É que o @lou leva essa história de blogar bem mais a sério que eu.
[achei a foto no we(L)it]
putz…. super burrada hein?!?!?! rsrsrs…
mas vai entender, são as coisas da vida… principalmente quando somos pirralhos e temos graaaaaaaandes amig@s…
Resposta
aaah, burrada nada, monkey.
eu achei que a felicidade dela, e da gente, valia mais.
ainda faço coisas assim, acredita.
tsc tsc tsc
beijos!
quase chorei.
de novo.
Resposta:
você me entende, né lou?
sempre sempre.
beijo
Ai, que triste. =(
Pusta nostálgia isso de colégio, né?! Lendo, me lembrou de tantas e tantas coisas que aconteceram no “meu tempo”… Coisas boas, e coisas ruins, quase iguais essa ai que vc descreveu…
Mas mulher é cheia dessas coisas mesmo, neh? De abrir mão do que pode ser uma PUSTA experiência, por causa de amig@s e afins… Homem não tem disso, mas ai recebe fama de galinha, desalmado e coisa e tal…
Resposta:
olha que eu nunca parei pra pensar sobre isso? se é mais coisa de mulher ou de homem? sempre achei que fosse só coisa minha mesmo. rsrs
obrigada pela visita.
é como diz o Smiths… “these things take time”, mesmo que você não seja “the most inept that ever stepped”.
todos nós estamos nesse processo. uns mais, outros menos. mas todos nós estamos.
te amo.
Resposta:
e seguimos testando nossos limites e os daqueles que nos cercam, concientemente ou não.
amo também, amarelo.
Me identifiquei muito com o teu texto… até ele chegar ao fim, quando, na surpresa, não me contive e o meu queixo veio abaixo!
Como disse o Pedro, todos nós estamos neste processo… E essas coisas levam tempo… Adorei o teu blog! Voltarei mais vezes
Meu, primeira vez que leio um post inteiro do seu blog. E seilá foi um misto de nostalgia, com seilá o que mais. Você escreve muito bem, viu, passarei mais vezes por aqui.
E quanto à história, parece mais um texto tirado de um livro de contos. Parabéns
acabou de acontecer comigo. acabei de fazer o mesmo que você fez com 15 anos. a diferença é que tenho 29.
Preferia que tivesse sido lá atrás, assim, eu não me sentiria tão burra. (e sem a amiga também, cabe lembrar).
E eu torço pra que o romance deles dois dure mais que ficadas esporádias porque o preço que eu paguei foi alto. (e não repita mais isso, mocinha! :D)
ótimo texto!
Uma expressão que tem fragrância de espelho derretido. É como assitir a uma história sem som, um filme -dos mais vibrantes- sem todas as cores que ele deveria ter. Triste e lindo.
Cheguei aqui sem querer e por querer parei para ler. É curioso como as lembranças dos outros, por mais particulares que sejam, acabam mexendo com a gente como se fossem nossas, especialmente as do colégio. Triste e lindo 2.