Estou pensando, por exemplo, em relatos sobre os modos de investigar que horas são. Julio Cortázar, em seu Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio, dizia que quando presenteiam você com um relógio não lhe dão “apenas esse pequeno picapedrero* que você irá amarrar a seu pulso e levar para passear… Dão-lhe de presente um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que é seu mas não é seu corpo, que tem de ser amarrado a seu corpo como a pulseira, como um bracinho desesperado pendurando-se de seu pulso. Dão-lhe de presente a necessidade de dar-lhe corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão-lhe de presente a obsessão de ficar atento à hora exata nas vitrines das joalherias, no anúncio do rádio, no serviço telefônico. Dão-lhe o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que caia no chão e se quebre. Dão-lhe de presente a marca, a certeza de que é uma marca melhor do que as
outras, dão-lhe de presente a tendência de comparar seu relógio com os demais relógios. Você não recebe de presente um relógio, você é o presente, você é que é ofertado para o aniversário do relógio”* Em espanhol, aquele que corta pedras batendo nelas com um instrumento contundente; alusão às batidas do tic-tac. (N.T.)
- Néstor García Canclini, em Leitores, espectadores e internautas
Canclini é muito ‘leitura obrigatoria’ para quem estuda comportamento e cultura, tanto do viver em comunidade quanto do reflexo deste comportamento em espaços virtuais.
Sobre relógios de pulso, adoro-os. E os uso de fato para ver as horas. O celular as vezes passa o dia todo esquecido debaixo do travesseiro e raramente o procuro para ver as horas.














