Archive for the 'trechos inesquecíveis' Category

ninguém

- Sabe a garota do copo d’água?
- Sei.
- Se parece distante talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não. Um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos: prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário. Talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?

~trecho do filme Le Fabuleux destin d’Amélie Poulain
Quadro “Almoço dos remadores”, de Renoir, 1881

at my skin

- Jamie loves you. You have so much!
- I know! I see it all around me, but it stops at my skin. I can’t let it inside. It’s always been like that. It’s always gonna be like that…

~trecho do filme Shortbus.
O filme inteiro é uma bosta! Não recomendo de jeito nenhum. Este foi o único trecho de que gostei. Identificação, talvez…

{the book thief}

“Doido ou não, Rudy sempre esteve destinado a ser o melhor amigo de Liesel. Uma bolada de neve na cara é, com certeza, o começo perfeito de uma amizade duradoura.
Dias depois do início das aulas, Liesel começou a ir à escola com os Steiner. A mãe de Rudy, Barbara, o fez prometer andar junto com a menina nova, principalmente por ter ouvido falar da bolada de neve. A favor de Rudy, verdade seja dita, ele ficou feliz em obedecer. Não tinha nada daquele tipo de garotinho misógino. Gostava muito de meninas e gostava de Liesel (daí a bolada de neve). Na verdade, Rudy Steiner era um daqueles cretininhos audaciosos que gostam de se engraçar com as mocinhas. Toda infância parece ter exatamente um desses jovens em seu meio e suas brumas. É o garoto que se recusa a temer o sexo oposto, puramente porque todos os outros abraçam esse medo, e é o tipo que não teme tomar decisões. Nesse caro, Rudy já se decidira a respeito de Liesel Meminger.”

~trecho de A Menina que Roubava Livros - Markus Zusak,p. 47.

Observações pertinentes:
- O livro é contado pela Morte (sem spoilers. Está na contracapa) e ela tem um “quê” da personalidade da Morte, de Neil Gaiman. Adorei ter percebido isso.
- Minha infância teve um desses meninos tempestivos. Entrou na minha vida quando eu tinha 9 anos e nunca mais saiu. Durante anos consegui escapar entre seus dedos e hoje somos várias coisas, além de amigos.
- É o típico livro que de tão interessante me rouba as poucas horas de sono que disponho. Tudo bem. São livros como este que alimentam esta categoria.

Enzo Rubino conseguiu capturar tanto êxtase juvenil nesta foto…

coffee and cream

He was my cream, and I was his coffee - And when you poured us together, it was something..

~trecho da biografia de Josephine Baker

beleza pelo engano

Franz comentou: - (…) A beleza de Nova Iorque tem uma origem completamente diferente. É uma beleza involuntária. Nasceu sem que houvesse intenção por parte do homem, um pouco como uma gruta de estalactites. As formas, feitas em si mesmas, se encontram por acaso, sem nenhum plano, em improváveis vizinhanças onde brilham de repente numa poesia mágica.

Sabina disse: - A beleza involuntária. É isso mesmo. Poder-se-ia dizer também: a beleza pelo engano. Antes de desaparecer totalmente o mundo, a beleza existirá ainda por alguns instantes, mas por engano. A beleza por engano é o último estágio da história da beleza.

Pensava em seu primeiro quadro de sucesso: por engano, havia escorrido sobre ele um pouco de tinta. É, seus quadros eram feitos com a beleza do erro e Nova Iorque era a pátria secreta e verdadeira de sua pintura.

~trecho do livro A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera, p. 107.

Esse trecho me lembrou outra coisa: há algum tempo atrás, eu e Augusto pintávamos camisetas durante horas num quartinho quente e apertado no quintal de casa. Numa noite qualquer, em véspera de uma exposição que participaríamos, esbarramos sem querer o corpo sujo de tinta numa camiseta pronta. Na mesma hora pensamos: “F*deu! Perdemos a camiseta”. Então, num estalo, surgiu a idéia de respingar mais tinta daquela mesma cor na camiseta, dando um ar de “ah, essa mancha está aí de propósito. Somos artistas“. Fizemos isso em todas, deixamos secando no varal, desligamos a luz e no dia seguinte levamos para exposição.
Resultado: naquele dia Bethânia foi nosso maior sucesso de vendas. ;)

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Esse post inaugura uma nova categoria, inspirada por um post da Liv Brandão, que por sua vez foi inspirado pelo blog de Bruno Galera: Trechos Sublinhados. Percebi que eu, assim como eles, também já destaquei muitas páginas, parágrafos e frases soltas que por qualquer motivo tenham me emprestado significado naquele momento da leitura. Interessante que o fenômeno não se restringe somente aos livros, mas também a filmes, letras de músicas e até diálogos despretensiosos pelos IM da vida.

Então a partir de hoje essas “pérolas” ficam armazenadas na categoria “trechos inesquecíveis“, já que minha cabecinha não consegue comportar todas elas sem considerável perda de conteúdo.

Foto do genial Ricardo.